Domingo, Dezembro 04, 2011

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O elevador se encontrava já à minha espera. Foi em seu interior que pela primeira vez me ocupei do tema que tinha tudo pra ganhar importância num futuro imediato: dinheiro. Afoguei as mãos nos bolsos da calça. Vinte reais. Algo abatida com o valor da soma, cogitei retornar. A casa ainda estava aberta, não? Droga! Não é que bati a porta da rua com toda a força que reunia em meu ser? Um certo orgulho me impediu de voltar e tocar a campanhia. Ainda me perguntei se ele seria primo-irmão da burrice, mas acabei por me nutrir de todo caco de decisão com que me deparei até o portão do condomínio. Raimundo fazia a troca de turno com o porteiro que chegava para assumir o período matutino. A eles dediquei não mais que a discreta periferia de meu campo visual e um costumeiro ‘bom dia’, dessa vez mais em tom de interrogação. Postei-me em frente ao portão, que me foi prontamente aberto. Ganhei a rua. Não consegui me decidir entre a esquerda, a direita e o outro lado da avenida. Percebendo o impasse, os porteiros liberaram o portão para que eu por ele mais uma vez passasse, agora em sentido contrário. O retorno não estava mais em questão. Impossibilitada de voltar ao décimo andar, teria de viver como um dos gatos de rua apadrinhados pelas crianças do condomínio. Bonachona, me espalharia preguiçosa sobre uma folha de papelão e jamais me faltaria leite. Quase ri do absurdo cenário. Não seria agora que as crianças cairiam na minha graça. Ademais, odeio leite! A companhia do porteiro Raimundo, agora também na calçada, pôs fim à quimera. Atos reflexos sempre nos levam por rotas conhecidas. Optei pela esquerda, caminho que me levaria à sede do Diário do Povo, comodamente localizado a três quadras do prédio de vó Rebeca. Na redação, as pessoas me presentearam uma expressão de espanto além da usual. Impressionou-me a rapidez com que o status de sem-teto se torna evidente. Arrependida de não tomar um banho antes de sair de casa, me instalei no fundo da sala dos colunistas. Tenho o costume de escrever em casa, mas as novas circunstâncias conferiram ao gélido escritório uma atmosfera até razoavelmente acolhedora. E se eu fizesse da redação minha nova morada? Teria apenas de mostrar serviço. Primeiramente, aparei as arestas de uma nova crônica sobre a gritante necessidade de reformas do Centro Cultural Dragão do Mar. Terminado o primeiro texto, lancei-me ao próximo e depois ao seguinte. Rabisquei artigos para a semana toda. No cair da noite, o editor-chefe surgiu em minha frente. Em seu punho direito trazia um jornal enrolado como um bastão. Sem cumprimento nem vocativo, se apressou em me comunicar:

- A sua avó me vendeu o jornal.

- Este que você carrega na mão? Ela sempre se interessou por vendas avulsas, não é verdade?

- Este em que estamos.

- Ah, fala sério, Mendes!

- Eu nunca falei tão sério.
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- Por que ela faria isso?

- A Dona Rebeca já tem 85 anos.

- Oitenta e seis. - corrigi.

- É uma idade em que se pensa em sucessão. Aparentemente, ela não dispunha de opções viáveis na família.

Ignorei a última alfinetada.


- O que quer? Os meus parabéns? 


Mendes sorriu. 

Reprimi uma forte ânsia de vômito.


- Parabéns, Mendes! Agora vai, deixa eu terminar só mais um artigo. Eu levo o de amanhã pra sua sala em dez minutos.


- Não precisa. O Diário do Povo dispensa os seus serviços.

- Perdão?


- Estamos modernizando a redação... Contratando profissionais mais capacitados.


Disfarcei o impulso de sair correndo:


- Você está certo disso?


- Jamais estive mais seguro de uma decisão.


- Ok. Então eu quero receber as minhas contas.


- Que contas? Você não tem contrato algum com o jornal.


Era verdade. Vó Rebeca não pagava salário oficial pelos meus serviços.


- Mas eu preciso do dinheiro, Mendes!


- Sinto muito. 


Tomado por um prazer irrefutável, ele me entregou o jornal que até então segurava, símbolo da proposta de uma nova atividade:


- Temos vagas no setor de vendas avulsas.

Aqui introduzi uma exigência algo inusitada:


- Eu tenho direito a um telefonema.


A alma de inspetor de polícia do Mendes o fez entrar no jogo. Não é que ele me ofereceu o seu telefone celular!?

Disquei o número de Daniel, único que sabia de cor.
 
Uma mulher atendeu:


- Alô ?


- Eu queria falar com Daniel.


- Quem gostaria?


(Detesto essa pergunta.)


- Quem está falando? – devolvi.


- A namorada dele. (silêncio) Quem fala? – retrucou a fêmea, levemente aborrecida.


- A maior das idiotas. – concluí, encerrando a ligação.
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Terminado o abstruso telefonema, voltei a atenção ao canalha do Mendes - por um ínterim completamente apagado de minha consciência. Ele me observava com interesse. Ponderei cuspir a sua cara, mas sabe lá se não precisaria do emprego de jornaleira num futuro próximo... Decidida a deixar pelo menos essa porta aberta, serenamente lhe devolvi o telefone.



- Obrigada, Mendes.


Ele sorriu.


A ânsia de vômito se tornara uma resposta-padrão ao seu indigesto sorriso.


Sem a menor noção de por onde seguir a partir dali, deixei a sala.  
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Tive de retornar. 

Esquecera de mencionar algo deveras importante:


-  Você é um grande filho da puta, Mendes.


Que a porra da porta se fechasse de vez! Antes eu venderia o jornal do concorrente.

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Às 18:30 estava eu na rua outra vez. 
Atravessei a avenida. Sentei na areia da praia e recaptulei: Além do pôr-do-sol, eu perdera também o lar, os poucos amigos e o emprego. Cheguei a possuir algum deles? O pensamento não só dizimou a sensação de derrota como também me libertou de uma ridícula ilusão. Então nada mudara. Sem lenço nem documento perambulei por todo o sempre. Agora o céu, o mar, as estrelas e a fome, que justo neste filosófico instante apertou o estômago, me fariam companhia. Eu poderia até tentar dar as costas ao caos urbano, mas a cidade cedo ou tarde me devoraria. Voltei ao calçadão. Ponderei um bocado antes de trocar dois preciosos reais por um salgado e um copo de suco. A aquisição me deixou contente. Dois reais a cada dia e os dez primeiros estariam garantidos. O absurdo do cálculo me alertou; precisava desesperadamente de um trabalho. Devorei o lanche. O afago da comida me levou à imaginação das circunstâncias em que eliminaria minhas excretas. Independentemente da indigestão de algumas de minhas frouxas associações mentais, banheiro na rua é difícil. Que falta de consideração com os moradores a céu aberto! Decidi enfrentar um leão de cada vez. Se a fisiologia assim o permitisse, primeiro encontraria um trabalho, depois consideraria a higiene pessoal. Inicialmente tentei restringir a busca pelo campo de atuação que mais me agradaria. Entre os serviços oferecidos no local, o trabalho num restaurante me pareceu adequado para alguém com relativo nível cultural. Após vinte infrutíferas tentativas, revi a estratégia. Não estava em condições de rejeitar outras oportunidades profissionais. Como o prédio do jornal era mais para essa ponta da avenida, voltei ao mercado de peixes e saí entrecortando a Beira-mar por todos os estabelecimentos comerciais. Lá pelo meio do percurso, uma certa loucura acometeu quem até então desfilava orgulhosa de sua obstinação diante das vicissitudes. Oh yes, o desepero abre alas aos fantasmas. Pensei em Daniel. Se o miserável não tivesse decidido perturbar a minha santa paz, eu não chegaria às seis da matina em casa, não flagaria os amassos de Maria e Raimundo, não ouviria de vó Rebeca o disparate de que ela se casou com o seu próprio irmão. Melhor, fossem eles todos minimamente razoáveis, eu seguramente jamais teria nascido. Por diversos meios, me pus a desfazer as muitas teias de confusões da vida. Embora o teórico desenlace de cada uma delas invariavelmente culminasse com o meu desaparecimento, nenhum mudava o fato de eu me encontrar na amarga rua, procurando emprego, teto e solução para toda uma a sorte de problemas existenciais que jamais imaginei enfrentar. A vida nesse cenário e nesses termos era decididamente diferente da que eu observava da janela do décimo andar. Parei para contemplar os arranha-céus. Um cidadão com um carrinho de coco assobiou para eu liberar a passagem. Atendida a solicitação, respirei fundo antes de pedir emprego numa banca de revista. Também antes de todas as demais ocasiões em que abordei os comerciantes da avenida. As reações variavam. As pessoas me sugeriam voltar um outro dia, tentavam me explicar como emprego andava difícil ou apenas balançavam a cabeça solidariamente desoladas com a negativa. Pelo compadecimento de todos os abordados, diria que o reponsável pelo desenho da vida fez do trabalho uma de suas peças essenciais. 
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Chegando ao aterro da Praia de Iracema, tirei as sandálias que me maltratavam os pés. A areia me ofereceu um remanso em meio à selva de pedra. Os lobos e as feras, pensei, variavam de acordo com o lugar do peão no tabuleiro. Se no meu mundinho de até então o inimigo era vó Rebeca; agora eu tinha de me ver com a cidade, a solidão e sabe lá... a chuva? Quis temer também os meninos perdidos da beira-mar e toda a marginalidade que apavora os mais abastados. Rá! Sem eira nem beira, tais medos não mais me eram de direito.  Para não dizer que só havia flores na exclusão social, voltei, como de costume, a remoer o absurdo de minha existência. Repassei mentalmente todos os últimos eventos e, muito rapidamente, os de todos os dias até então. Um flashback assim tão vívido, diz-se, acontece momentos antes do falecimento. Mal deitei na areia, voltei a ouvir os estranhos seres de tempos atrás. Seria a danada da morte a me encurralar com suspiros? Precisava dormir.
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- Tenho novidades quanto ao que me pediste.


- A autorização para presenciar o suicídio de Joaquim Segundo?


- Fala baixo. Não convém que solicitações desta natureza se acumulem.


-  Muito obrigada, Julius!


- Não agradeças. O faço apenas porque me parece o único meio de averiguar a questão. 

- Compreendo.

- Cada vez que me voltas com detalhes a respeito desta moça, mais impossível a sua história me parece. Esclareça de uma vez por todas a sua real situação.


- Assim o farei.


- Há uma ressalva. Terás de abdicar do cargo de supervisor estadual.


- Por quê?


- Só se pode conceder tal autorização ao protetor espiritual do ser encarnado em questão.


- Terei de ser o seu anjo-da-guarda?


- Já não tens agido como tal?


- Não exatamente. (pausa) Ela sumiu.

(silêncio)
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- Aguardo a explanação.


- Rebeca a expulsou de casa.


- Nós havíamos combinado que a moça voltaria imediatamente ao plano espiritual!


- Imediatamente?


- Eurípedes!
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- Só mesmo razões puramente biológicas ou péssimos hábitos para acelerar o processo de destruição da matéria. Se a criatura não é dada a vícios ou excessos, de que recurso este pobre servo do Senhor dispõe?

- Bem sabes que há muitos possíveis desfechos.

- Uma morte acidental, violenta, quem sabe? Perdoa-me; não me sirvo de tais meios.

- Não distorças minhas palavras. Diz-me, o que aconteceu à pobre moça.

- Avançou o entendimento de algumas questões familiares, experimentou um envolvimento amoroso e ganhou o mundo.

- Influenciaste a sua sorte.

- Imagina!

- Confessa.

- Apenas cuidei para que os já iminentes eventos se desenrolassem com suavidade.

- Citaste um envolvimento amoroso. Há possibilidade de gravidez?

- Não sei.

- Como não sabes?

- Não é porque podemos estar em todos os lugares que devemos perder a discrição.

- Trata de localizá-la. Em caso de gravidez, precisamos avaliar as consequências da sua perda para a criaturinha.

- Julius, eu não quero presenciar o suicídio.

- Mas o que é isto agora? Mudaste idéia apenas para preservar o teu cargo?

- Não me interpretes mal. (pausa) Permite-me concentrar meus esforços em localizar esta moça.

- Façamos disto: Tens um dia terrestre para encontrá-la, esclarecer sua origem e resgatar seu registro. Se falhares, entregarás o teu posto. Eu mesmo assumirei o caso.

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