Tentativa de abstracao II
Despertar
Experimento com auto-retrato
... e no oitavo dia,
Deus se encantou pela beleza
e decidiu ficar:
Rio de Janeiro
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Agora tem esse negócio de seguidores aqui. Não se assustem! Desconfio de que os cadastrados serão informados sobre as minhas infrequentes atualizações.
Tentativa de abstracao II
Despertar
Experimento com auto-retrato
... e no oitavo dia,
Deus se encantou pela beleza
e decidiu ficar:
Rio de Janeiro
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"Nothing right in my left brain,
nothing left in my right brain"
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Uma vez um colega de faculdade hipotetizou que imediatamente após aprendermos exatamente a mesma coisa, ele saberia um pouco mais e eu, um pouco menos. A observação me irritou de imediato, afinal sempre fui a garotinha esperta da mamãe! Um pouco de distância do episódio me ajudou a entender a colocação. Sou de natureza ignorante: Uma nova informação é apenas mais uma no grande hall das incertezas de tudo o que ainda não sei. A Medicina é efetiva porque se basea numa intrincada linguagem de “certezas”, em que sinais X + sintomas Y + resultado do exame W = doenca Z. Claro que estou simplificando… e muito! Na mais das vezes, Z + Y podem ser também S, L, D ou Sabe Lá Deus! Com uma eficiente formatação, vulgo „pratica”, fica mais claro o resultado. É um conhecimento que se constrói pela necessidade de convertê-lo em efetivas ações e não há duvidas: Quando dele dependem vidas, é fundamental estar certo. Afinal, o paciente vem até você porque você, mais do que ninguém, sabe! Como o colega habilmente sacou, minha mente está mais voltada para a incerteza das infinitas possibilidades. O saber, mais que um seguro destino, sempre me caiu mais como uma pista para o desconhecido. É o “não sei” que me movimenta. Como todos os caminhos tortuosos nos levam ao que desejávamos desde o principio, nos transtornos mentais encontrei dúvidas suficientes para atar toda a minha irrequieta ignorância. Com a liberdade de outra metafórica simplifição, em Psiquiatria ninguém está muito certo de nada, o que garante um amplo espaço para uma eventual reviravolta no paradigma corrente. Duvidando o suficiente para não confiar tanto assim nela, decidi me aprochegar pelas beiradas. Desde setembro estou às voltas com um mestrado em Neurosciências aqui em Berlim. Convicta adepta do auto-didatismo, não foi mole encarar seis horas de aula por dia! O rigor germânico me impondo 100% de presença e as minhas sagazes colegas biólogas alemãs discutindo cada ângulo de toda molécula envolvida me azucrinaram o juizo. Quem já se deparou com livros de Medicina sabe que eles não são lá muito “leves”. O jeito é partir pra uma leitura ultra-rápida, quase como um anti-virus a detectar e deter só os pontos, digamos, fatais. Aí me vem um professor-doutor-cientista-maluco indicando quarenta gráficos de vinte experimentos que conduzem a uma, eu disse uma, mísera sentenca de conclusão! O buraco, como se diz...
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.....é bem mais embaixo
e o caminho até a tão sonhada verdade pode levar, 10, 20, 30 experimentos, quem sabe toda uma vida... e durar só até um cidadão matreiro enxergar o mesmo problema por um ângulo ligeiramente diferente. Oh yes, baby, a ciência é de velocidade imprevisivel e o livro texto é de fato só uma bela amostra do que a a curiosidade e observação humana produziram ... Anteontem. Aos 25 anos e (duas semanas?), minha mente entra num outro ritmo de funcionamento. E não é que algumas das irritantes perguntas das minhas ultra-espertas colegas biólogas alemãs começam a pipocar na minha caixola tupiniquim? Agora entendo por que basta pesquisar mais a fundo um assunto pra encontrar como referência algum diligente cientista germânico: Os caras sao céticos, diretos, precisos. Da fronteira de tudo o que ainda não entendo, avisto um turbilhão de perguntas e nem precisa dizer: Estou aprendendo um monte!
"O médico verdadeiro não tem o direito de acabar a refeição, de escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto. Aquele que não atende por estar com visitas, por ter trabalhado muito e achar-se fatigado, ou por ser alta noite, mau o caminho ou o tempo, ficar longe, ou no morro; aquele que sobretudo, pede um carro a quem não tem como pagar a receita, ou diz a quem chora à porta que procure outro - esse não é médico, é negociante de medicina, que trabalha para recolher capital e juros e compensar os gastos da formatura. Esse desgraçado, que manda, para outro o anjo da caridade que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única espórtula (esmola) que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito, a única que jamais se perderá nos vaivens da vida." Dr. Bezerra de MenesesÉ mole?
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O tema: Sem ética não há progresso.
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Há três dias
soube o resultado do concurso.
Adivinhem?
Não.
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Tudo bem, tranqüilo...
Eu não queria mesmo!
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Há três dias
o livro não avança nem meia página.
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Hoje
celei um compromisso:
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O livro vai sair!
Não me pergunte como.
Também não sei quando.
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P.S. Abaixo, para fins de registro, segue o texto do concurso.
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(Sei se vale muito a pena não...)
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“Agora as manchetes nacionais! Jornal do Dia: Ética deixa oficialmente o partido. Folhetim: Progresso será o próximo a abandonar o governo. O Capital: Sem Ética não há progresso...”
–Tenente Oliveira, quem é esse locutor?
–Zé do Rádio, Coronel.
–O senhor gosta do programa, tenente?
–Demais, senhor!
–Tenente, o senhor não acha que ele está um tanto equivocado no que se refere a seus conceitos político-filosóficos?
–Coronel, o Zé tá só passando a notícia!
–O que diz a nossa bandeira, tenente?
–Ordem e Progresso, senhor!
–Quem são os chefes do governo?
–Ordem e Progresso!
–O senhor mencionou alguma vez a Ética, tenente?
–Não senhor!
–Tenente Oliveira, o partido zela por princípios simples. Simples como a inteligência de nosso povo. Quando alguém vem falar na Ética e misturar toda sua conversa filosófica com Progresso - Progresso que se fundamenta na Ordem - nosso povo fica confuso! O senhor compreende?
–Sim senhor!
–Quero esse locutor amanhã, na sala de interrogatório!
General Ordêncio, primeiro ministro, apoiara a Ordem em um golpe militar em detrimento dos demais valores. Progresso, que não era de se definir assim de imediato, permaneceu no governo, o que garantiu certa popularidade. Já a Ética não se alinhou aos princípios da ditadura e acabou por se retirar da bancada. Assim, a intrínseca ligação entre Ética e Progresso ameaçava não só o absolutismo da Ordem, como também o cargo do General.
–Foi mal, Zé!
–Foi mal?! Tu me fodeu Oliveira!
Zé e Oliveira cresceram como irmãos. Oliveira, que entrara para a academia militar mais pelo sucesso do uniforme entre o público feminino que por entusiasmo pela ditadura da Ordem, mal podia acreditar na enrascada em que metera o primo. Zé precisava de uma solução mágica, saída que os dois agora buscavam numa mesa de bar.
–Sujou, Zé! O pessoal do quartel tá chegando aí!
–Re-pi-to: Sem a Ética, o Progresso sai do governo e a Ordem se lasca!– provocava Zé, num prenúncio de confusão.
–Fodeu, Zé! O General!
Zé do Rádio, que bem sabia o que o esperava na sala de interrogatório, também era mestre em brincar com a vaidade alheia.
–Deixa comigo, Oliveira!
Resolveu arriscar:
–General Ordêncio! Em nome da nossa rádio, gostaria de convidá-lo a uma participação especial no programa de amanhã! O senhor, homem de muita ciência e cultura, será de extrema relevância em nossa discussão sobre a aliança “Ordem e Progresso”!
O General, que bem gostava de uma platéia, não resistiria ao convite:
–Bom dia caros ouvintes, aqui quem fala é Zé do Rádio...
O nome do locutor ecoou na mente do General, lembrando-lhe certo interrogatório do qual se esquecera por completo.
–General Ordêncio, o Progresso, nosso ministro do desenvolvimento, está prestes a abandonar a base do governo. O povo quer saber, o que fazer para garantir o Progresso no país?
A resposta foi a automática associação do General:
–Não há quaisquer indícios de ruptura na aliança Ordem e Progresso!
–O senhor acha que o Progresso resiste ao desacato aos bons costumes, aos deveres, ao modo de proceder dos homens em relação a seus semelhantes?
Tudo aquilo soava tão militar...
–Claro que não!
–Sem se determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade como um todo? Sem crítica ao julgamento de caráter moral?
–Não...
–Ao desacato ao homem, à injustiça e à ineqüidade, General?
–Não! – declarou o militar já algo confuso.
Era preciso arrematar antes que o entrevistado se desse conta do jogo:
–Como entusiasticamente defende o general Ordêncio, meus caros amigos, sem Ética não há Progresso!
O general agora precisava de um tempo para reordenar as idéias.
–Eu não disse nada disso, rapaz!
–Ética e Progresso! – prosseguia irrefreável o jornalista. – Ética e Progresso, meu povo!!!
Quando tudo soou muito inovador ao General, o clamor já se espalhara pelas ruas. Seguiu-se que Revolução tomou o país e a Ética se aliou ao Progresso. Democracia aproveitou o ensejo para organizar novo pleito e Honestidade fiscalizou tudo. A chapa Ética e Progresso arrebatou as urnas. Alegria contagiou o povo e Felicidade apoderou-se dos corações - até mesmo da Ordem - que cansou da mesmice tirana e ensaiou um samba para comemorar!
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Fim!
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. . . . . . . ."Não endendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: pelo menos entender que não entendo."
Salve Clarice Lispector!